Guerra médica contra o fumo

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DPOC é uma das maiores preocupações decorrentes do tabagismo. Doença afeta 7 milhões no Brasil, mas apenas 300 mil casos são diagnosticados

Publicado em 17/10/2011 | Dâmaris Thomazini, enviada especial

Com cerca de 1 bilhão e 200 milhões de fumantes no mundo, de acordo com dados da Orga­nização Mundial de Saúde (OMS), o número de problemas relacionados ao tabagismo são sempre superlativos: 4,9 milhões de pessoas morrem por ano em decorrência do cigarro e o uso do tabaco é sozinho a maior causa de doenças evitáveis e de mortes prematuras em países desenvolvidos. Diante desses fatos, desde 1997, quando foi inserido na Classificação Internacional de Doenças (CID 10) da OMS, na categoria de transtornos mentais, a medicina deixou de encarar o tabagismo como um hábito, e passou a tratá-lo como uma patologia.

“O tabagismo não é só um fator de risco para outras doenças. O paciente não se livra deste hábito de forma simples, pois fumar é uma dependência química [tipo de transtorno mental]: não se fala em ex-tabagista, mas, sim, em fumante em abstinência”, explica a professora do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Ana Rocha. Ela é autora de um estudo sobre métodos para cessação do fumo apresentado no 21.º Congresso Anual da So­­ciedade Respiratória Europeia, em Amsterdã.

A preocupação com problemas decorrentes do cigarro, principalmente a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), foi a grande tônica do evento que reuniu, em setembro, mais de 15 mil médicos de todo o mundo na Holanda. Sexta causa de morte no mundo, a DPOC compromete de forma irreversível os pulmões, a capacidade respiratória de fumantes e é capaz de incapacitar o pa­­ciente. O organismo costuma dar os primeiros sinais da doença após 30 anos de uso diário de cigarro e de exposição do pulmão à fumaça tóxica.

“A DPOC é um espelho dos hábitos do passado, quando as pessoas fumavam mais, por isso sua prevalência e mortalidade são tão altas hoje. O uso de tabaco tem diminuído lentamente, assim, no futuro, a incidência da doença deve cair”, explica o pesquisador da Univer­sidade Uppsala, da Suécia, Bjorn Stallberg, que há 15 anos se dedica ao estudo da doença e ministrou um curso de especialização sobre DPOC em Amsterdã.

Apesar do otimismo de Stallberg, a diminuição de casos da doença não deve acontecer no curto prazo: em 20 anos, a OMS prevê que a DPOC irá se tornar a terceira maior causa de mortes no mundo. Hoje ela afeta 210 milhões de pessoas.

No Brasil, 80% dos homens e 60% das mulheres que morrem devido a doenças crônicas respiratórias são tabagistas. A DPOC afeta 7 milhões de pessoas no país, mas apenas 300 mil casos são diagnosticados. Um estudos da Escola de Saúde Pública de Harvard mostrou, ainda, que o impacto da DPOC na economia global foi de US$ 400 bilhões só em 2010.

O presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Ti­­siologia (SBPT), Roberto Stirbulov, lembra também que o cigarro não prejudica somente o sistema respiratório: “Todo o organismo sofre com o tabagismo: ele prejudica o cérebro, os ossos, o sistema digestivo, vascular e urinário”.

Brasil participa de pesquisa mundial

A fragilidade dos pulmões de pacientes acima dos 60 anos com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) grave alimenta um ciclo em que infecções bacterianas agravam a doença e tornam o órgão cada vez mais vulnerável aos micro-organismos. Este quadro, maior causador de mortes entre os pacientes com DPOC, favorece a ocorrência de crises respiratórias. Para conter a progressão do problema, 78 pacientes brasileiros participaram do Estudo Maestral, que envolveu um total de 153 centros de pesquisas de 30 países.

O estudo comparou a ação de dois antibióticos: a amoxicilina, medicamento mais utilizado contra doenças bacterianas, e o moxifloxacino, específico para infecções respiratórias. Os resultados de três anos de pesquisas foram apresentados no congresso em Amsterdã, em setembro.

Segundo o chefe da divisão de medicina pulmonar da Uni­versidade de Buffalo, nos EUA, Sanjay Sethi, participante do estudo coordenado pela matriz do laboratório farmacêutico Bayer, na Alemanha, infecções nos pulmões precisam ser tratadas com rapidez para evitar uma destruição ainda maior do órgão. Isso porque ainda que o paciente pare de fumar, os pulmões de quem tem DPOC permanecerão danificados para sempre, pois não há como reconstruir o seu tecido.

“Nem todos os antibióticos matam as bactérias, o que pode acarretar casos de resistência às drogas e incidência de novas infecções. Nesta comparação, a amoxicilina apenas interrompia a ação dos microorganismos, enquanto o moxifloxacino tinha ação mais rápida e erradicou a bactéria”, explica ele. O moxifloxacino demonstrou mais eficácia no alívio das crises respiratórias, o que permitiu o retorno dos pacientes às atividades diárias, além de preservar o órgão já comprometido pela DPOC.

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Tratamento

Vida ligada a tubo de oxigênio

O consumo de uma carteira de cigarro por dia durante 30 anos fez com que o ex-professor de Física de cursinhos Antônio Sicuto D’Ambrósio, 63, desenvolvesse a DPOC – doença caracterizada pelo enfisema pulmonar e pela bronquite crônica. Apesar de ter o mal detectado em exames, por muitos anos ele não percebeu os sintomas da doença. Em 2006, durante uma viagem à Itália, a constante falta de ar nos passeios a pé foi o estopim para que ele largasse o vício. “Antes, eu havia tentado parar com adesivos e medicamentos, mas não consegui. Depois deste episódio na Itália, eu simplesmente parei”. Interromper o vício impediu que D’Ambrósio tivesse os pulmões ainda mais deteriorados, mas os danos já causados ao órgão não puderam ser revertidos e sua capacidade respiratória ficou comprometida. Atividades como trocar de roupa e amarrar um tênis precisaram ser adaptadas, pois o menor esforço passou a acarretar falta de ar. A DPOC impôs a Antônio, ainda, a realização de fisioterapia respiratória, uso de broncodilatadores e a convivência 24 horas com um tubo de oxigênioterapia. Apesar das limitações, não se deixou abater. Hoje, dá aulas de italiano cinco vezes por semana. “Faço aquilo que mais gosto e cuido para preservar o que restou do meu pulmão. Segundo meus médicos, não vou morrer de DPOC”, diz.

Vício

Sintomas comuns da síndrome de abstinência:

– Irritabilidade

– Insônia

– Tremores

– Ansiedade

– Aumento do apetite

– Tontura

Uma batalha difícil

Segundo o psicólogo sueco especialista em cessação do fumo, Karl Fagerström – que dá nome a um teste de dependência em nicotina – o maior perigo ao acender um cigarro está na sua fumaça, que tem mais de 4,7 mil substâncias tóxicas. “A nicotina causa dependência química e a fumaça causa doenças como o câncer de pulmão e a [Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica] DPOC”, explica.

Após 35 anos dedicados à pesquisa sobre métodos para que as pessoas larguem o cigarro, o psicólogo afirma que não existe processo que seja fácil. “Os medicamentos ajudam a reduzir os sintomas da abstinência, como estresse e ga­­nho de peso, e os profissionais da saúde podem apoiar os pacientes para que eles se motivem, mas nunca ouvi falar, por exemplo, de uma pessoa com depressão que tomou remédios e ficou completamente feliz”, compara.

Vencer a dependência e deixar para trás os maços de cigarro exige dos pacientes mais do que boa vontade. Para ajudá-los, os médicos cos­­tumam receitar substitutos de nicotina como chicletes ou adesivos. “O cigarro é uma droga que afe­­­­ta o organismo assim como a co­­­­caína. Ele não causa euforia, mas causa prazer”, diz Fagerström. Nos fumantes, a falta de nicotina al­­tera os níveis de dopamina, o que provoca alterações de humor. Me­­dicamentos como antidepressivos também são utilizados para estabilizar os níveis da substância. (DT)

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*Retirado da Gazeta do Povo

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