“nada pode ser ganho pelo simples exercício do direito de voto de 4 em 4 anos” e “Uma revolução seria bom”: entrevista com uma deputada grega

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“Nada pode ser ganho pelo simples voto de 4 em 4 anos”

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Antiga campeã olímpica de lançamento do dardo, Sofia Sakorafa já era célebre muito antes de ser expulsa do grupo parlamentar do PASOK. Aconteceu há um ano, pela voz do presidente do parlamento grego, quando a deputada foi a única socialista a votar contra o acordo com a troika. Desde então, Sakorafa dinamiza uma comissão cidadã para uma auditoria à dívida grega. Entrevista de Jorge Costa
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Artigo | 27 Julho, 2011 – 19:43
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Sofia Sakorafa foi a única socialista a votar contra o acordo com a troika

Sofia Sakorafa foi a única socialista a votar contra o acordo com a troika
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Porque recusou o acordo com a troika, proposto pelo PASOK?
A minha decisão não foi produto de um momento emotivo, sob pressão dos factos. Pelo contrário, reconheci nesta intervenção características e resultados comuns a intervenções anteriores noutros países: pobreza absoluta. Um dos requisitos desta intervenção é a perda de parte da soberania grega. Mas a propaganda dos mass media para aterrorizar uma população empobrecida tornou irresistível essa perda de soberania. Há mais um facto importante: a diminuição do papel do parlamento. Fiquei triste com o facto de o PASOK ter considerado que um deputado não deve votar em consciência. Na manhã anterior à votação tive uma reunião com Papandreou, presidente do PASOK e primeiro-ministro. Perguntei se a política deste memorando teria conclusão num prazo até 5 anos. Ele respondeu-me directamente: “Não sei, não lhe posso responder”. Isto foi o ponto final.

Como vê a situação do país um ano depois, já com um segundo memorando em vigor?
A Grécia teve um ano que será escrito em páginas negras na sua história. A população vinha de uma situação que não era de abundância. Mas, trabalhando arduamente, conseguia-se uma vida digna. Hoje, vivemos o contrário disto. Do dia para a noite, um povo trabalhador é apresentado pela União Europeia (especialmente pela Alemanha) como um país preguiçoso, corrupto, habitado por ladrões em conluio com o poder. Não é assim. Esta intervenção externa tem práticas usurárias. De repente, somos obrigados a vender tudo, a começar pelos recursos – como o solo, a água, a energia – que num futuro próximo poderão ser a nossa possibilidade de ultrapassar esta crise. Estes são os nossos únicos meios para evitar a bancarrota permanente. Falam de risco de bancarrota, mas já vivemos uma bancarrota interna: no último ano, a pobreza cresceu cerca de 40%.

Desde meados de Maio, há um novo protagonista na política grega: o povo das praças. Que movimento é este?
Esta intervenção externa mostrou aos gregos que nada pode ser ganho pelo simples exercício do direito de voto de 4 em 4 anos. As pessoas perceberam que têm de estar presentes para exigir os seus direitos, de forma pacífica, como está a ser feito na ocupação das praças. Mais importante ainda, perceberam que o actual sistema politico não é capaz de tirar o país desta situação extrema. Considero as pessoas das praças como massa crítica – são pessoas de todos os horizontes políticos, que não sabem o que fazer neste momento mas que tentam transformar a sua acção num corpo político capaz de determinar o futuro e alterar um sistema que ainda não percebeu que não pode propor um futuro semelhante ao presente.

A oposição de esquerda está divida em três forças (o Partido Comunista, a coligação Syriza, da esquerda radical, e a coligação extra-parlamentar Antarsya). Pode haver alternativa política na Grécia?
Infelizmente, a esquerda ficou parada, incapaz de reagir ao que estava a acontecer, num papel de espectadora. A fragmentação não tem ajudado. Neste momento, é necessária uma frente única de combate, com uma plataforma de gestão da crise, para tomar a iniciativa e conduzir o processo. É difícil, poderá levar tempo, mas a esquerda tem de perceber que não pode fazer menos que tomar o poder. Uma revolução seria bom. Mas neste momento temos uma crise, temos de encará-la e dar-lhe resposta. Somos obrigados a afastar o nosso egoísmo, de parar de acreditar que a nossa verdade é a única, e de nos unirmos com uma base comum de resistência. Na minha posição de deputada independente, sinto-me obrigada a agir com um papel unificador neste processo. Não me preocupa se estou na frente ou na retaguarda, a minha preocupação é que ele avance.

Qual o argumento pela auditoria à dívida grega?
Perante esta factura, as pessoas têm direito a saber como esta dívida foi criada, por quem, por quê, junto de quem e em que montantes. É um direito democrático fundamental. Um Estado constitucional deve mostrar as suas contas à população. Por isso fiz a proposta de uma auditoria à dívida, recusada no parlamento. O governo faz-se surdo a esta exigência, quando sabemos que boa parte da dívida é produto de corrupção. O primeiro-ministro admite-o, o senhor Juncker admite-o, mas todos insistem que é o povo que tem de pagar a conta.

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*Retirado do Esquerda.net

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