Epidemia silenciosa

***

Envelhecimento da população deve causar aumento nos casos de demência nos próximos 20 anos. Na América Latina, alta pode chegar a 146%

Publicado em 28/07/2011 | Bruna Maestri Walter

O Brasil deverá presenciar nas próximas décadas uma espécie de epidemia silenciosa, cujos sintomas demoram a ser percebidos e o tratamento gera elevados custos para a saúde pública. Trata-se da demência, uma síndrome que afeta a memória e o comportamento dos pacientes e que acomete principalmente os idosos. A forma mais comum é a doença de Alzheimer.

O envelhecimento da população será o propulsor dessa epidemia. Hoje, a demência atinge cerca de 1 milhão de idosos no Brasil. O país está na região que, segundo previsão da Alzheimer’s Disease International, organização internacional sobre a doença, poderá ter o maior crescimento proporcional de portadores acima de 60 anos nas próximas duas décadas. A América Latina tropical, que abrange Brasil e Paraguai, registrará um aumento estimado de 146% entre 2010 e 2030. A quantidade de pacientes subirá de 1,05 milhão para 2,6 milhões. No mundo, a estimativa é de 85%.

Para a professora do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Márcia Scazufca, que participou de um consenso mundial sobre o crescimento, as projeções são alarmantes. Segundo ela, o Brasil tem uma dificuldade a mais na comparação com países desenvolvidos, onde o aumento da população idosa foi lento. “No Brasil, o número de idosos está crescendo vertiginosamente e fica mais difícil de se preparar”, diz.

Custos

O crescimento exigirá mais investimentos na área de saúde, qualificação dos profissionais, formação de cuidadores de pacientes e conscientização da população, apontam especialistas. E isso gera uma despesa elevada. O custo estimado da demência no mundo no ano passado foi de US$ 604 bilhões, segundo a Alzheimer’s Disease International. O valor equivale a cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

A vice-coordenadora do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, Sônia Brucki, explica que há gastos diretos, gerados pela medicação, hospitalização e contratação de cuidadores, e outros indiretos, causados pelos pacientes e familiares que deixam de trabalhar por causa da doença.

Sônia revela que, assim como outros países, o Brasil não está preparado por enquanto para lidar com a situação. Segundo ela, existem médicos que “ainda deixam muito a desejar” na suspeita de declínio cognitivo. “Uma coisa fácil de você fazer é incorporar na consulta, qualquer que seja a especialidade médica, a pergunta se o paciente está com algum problema de memória, com dificuldade de fazer o que fazia antes.”

Necessidade

No Brasil, o doente ainda é “subtratado e subdiagnosticado”, afir­­ma o neurologista, geriatra e gerontólogo Luiz Carlos Ben­thien. Segundo ele, o aumento de casos de demência será um seriíssimo problema de saúde pública e é importante que o sistema comece a treinar os cuidadores de pacientes.

Outra necessidade é que a população fique atenta aos sinais da demência. De acordo com a Academia Brasileira de Neurologia, um paciente demora, em média, mais de três anos para saber que tem a doença de Alzheimer. Para o psiquiatra Leonardo Caixeta, da Universidade Federal de Goiás, as demências são consideradas epidemias silenciosas. “Na cultura latino-americana, o déficit de memória não é experimentado pela família. Quando o idoso chega [ao médico] já está entrando em fase moderada”, diz. A demência não tem cura, mas o diagnóstico precoce e o tratamento aumentam a sobrevida e a qualidade de vida do paciente.

Ações

Para tratar os casos, o Ministério da Saúde informou que instituiu o Programa de Assistência aos Portadores da Doença de Alzheimer. A ação funciona por meio de Centros de Referência em Assistência à Saúde do Idoso, responsáveis pelo diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos pacientes. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, o sistema público oferece a rivastigmina, a galantamina e o donepezil, remédios utilizados no tratamento. Também estão sendo capacitados profissionais do SUS para atendimento aos idosos.

(clique na imagem para aumentar)

“Minha mãe nem sabe que tem Alzheimer”

Esquecimento, mudança de comportamento e dificuldade com atividades cotidianas são alguns dos sintomas que podem indicar a demência. No entanto, as manifestações muitas vezes passam despercebidas e, quando se procura ajuda médica, a doença já está em estágio avançado.

O caso de Lúcia*, de 91 anos, é considerado exceção: procurou o médico assim que começou a notar os sintomas e logo começou o tratamento, que hoje dura quase dez anos. Ela tem princípio de Alzheimer, mas não sabe disso. “A mãe bem no começo sempre falava: ‘Graças a Deus que não tenho Alzheimer’. A gente procura não falar para ela”, conta o filho.

Segundo ele, a mãe tem uma vida normal: viaja, se reúne com as amigas, vai à igreja, borda, assiste à novela. “Ela sabe o que quer, não está alheia, conversa, dá recados, lembra de fatos de agora e anteriores”, conta.

Na família há outros casos de pessoas com demência. Devido à experiência, ele orienta que as famílias fiquem muito atentas ao comportamento dos idosos.

* Nome fictício

Para não esquecer

Saiba mais sobre a demência:

O que é?

– É uma síndrome que pode ser causada por uma série de doenças progressivas que afetam a memória, o pensamento, o comportamento e a habilidade para rea­­lizar atividades cotidianas. A doença de Alzheimer é o tipo mais comum. A de­­mên­­cia afeta principalmente as pessoas mais idosas: depois dos 65 anos, a probabilidade de desenvolver a síndrome praticamente dobra a cada cinco anos.

Como prevenir?

– A prevenção passa por retardar o aparecimento da doença. Algumas orientações:

– Tenha uma boa alimentação, com frutas, legumes, grãos e azeite de oliva.

– Faça exercícios físicos.

– Mantenha o cérebro em constante ativi­­dade: leia, aprenda novos conteúdos, fa­­ça cursos, tenha uma convivência social.

Quais os fatores de risco?

– Idade.

– Doenças cardiovasculares.

– Baixa escolaridade e analfabetismo.

– Estudos mostram que mulheres apresentam maior risco do que os homens.

Quais os sintomas?

– O primeiro sintoma é a memória recente comprometida, com declínio cognitivo leve. Exemplos: a pessoa não sabe onde deixa as coisas e se torna repetitiva.

– Na fase moderada há o risco de cometer algum acidente sem querer, como um descuido na cozinha. A pessoa também começa a ter dificuldade de julgamento e pode ouvir vozes e dizer que a estão perseguindo.

– No estágio severo há desordem de comportamento: o paciente se torna muito agressivo, xinga, necessita de cuidados o tempo todo e não se importa com a higiene pessoal nem com a alimentação.

Fonte: Especialistas e Alzheimer’s Disease International.

***

*Retirado da Gazeta do Povo

***

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: