Alimentos industrializados: o debate precisa avançar

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Publicado em 23/07/2011 | Luiz Antonio Santini e Fábio Gomes da Silva

Até para os países mais ricos, investir na recuperação de pessoas adoecidas, sem interferir na origem dessas doenças, é extremamente caro e insustentável

Pela primeira vez a reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas terá como tema central as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como o diabete, os problemas cardiovasculares, as doenças respiratórias crônicas e o câncer. A assembleia será realizada em setembro, em Nova Iorque.

A motivação para a inclusão do tema provém dos efeitos devastadores dessas doenças, que vão além de impactos para a saúde pública e atingem questões essenciais ao desenvolvimento das nações. Segundo a ONU, 60% das mortes no mundo são causadas por DCNTs e mais de 80% dessas ocorrem em países em desenvolvimento. Por contribuírem para a geração da pobreza e do subdesenvolvimento, as DCNTs têm chamado a atenção não só de políticas de saúde, mas também de intervenções econômicas e sociais sobre fatores determinantes da saúde. É nítido que até para os países mais ricos, investir na recuperação de pessoas adoecidas, sem interferir na origem dessas doenças, é extremamente caro e insustentável.

Nota-se que dos seis principais fatores de risco das DCNTs, quatro estão intimamente relacionados com a alimentação. São eles: hipertensão, glicose elevada, sobrepeso/obesidade e colesterol alto. Segundo a OMS, 28% de todas as mortes no mundo devem-se a esses fatores. É evidente a influência da má alimentação que hoje é marcada pelo consumo excessivo de produtos prontos para aquecer, os quais possuem altas concentrações de calorias, açúcar, gorduras e sal.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a combinação do peso adequado com a prática de atividades físicas e alimentação saudável é capaz evitar 19% dos casos de câncer do país. No entanto, é forte a expansão das guloseimas no cardápio dos brasileiros, que em três décadas aumentaram em 400% o consumo de refrigerantes e biscoitos. Com isso, atualmente, metade da população adulta já está acima do peso e, se o país não fugir desse caminho, em 12 anos, como prevê o Ministério da Saúde, o Brasil poderá alcançar o porcentual dos Estados Unidos, que é de dois obesos para cada três americanos.

A intervenção neste cenário requer a regulação da publicidade que incita o consumo irrestrito de produtos não saudáveis, especialmente entre as crianças; a interferência no acesso financeiro aos produtos por meio de políticas fiscais; e a intervenção na “praça”, ou seja, nos ambientes onde os produtos estão expostos.

O Inca reconhece que é um avanço o acordo firmado entre o Ministério da Saúde e a indústria de alimentos processados na redução gradual da quantidade de sal. Esse é o primeiro passo em prol da melhoria na alimentação dos brasileiros. Para acompanhar a conquista, medidas regulatórias na publicidade de alimentos industrializados devem ser intensificadas, assim como foram nas campanhas antifumo, que contribuíram para que 93% dos fumantes sejam conscientes dos malefícios do produto.

O Brasil exporta um exemplo bem-sucedido na área do tabagismo que combina esses três focos de intervenção: restrição seguida de proibição da publicidade, taxação dos produtos de tabaco para aumentar os preços, e limitação de uso, promoção e venda em determinados ambientes. Como resultado, segundo a Pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), a prevalência de tabagismo na população adulta brasileira caiu para 15,1% no período de 2006 a 2010, o que evidencia o potencial impacto que ações semelhantes exerceriam no campo da alimentação, por exemplo.

Luiz Antonio Santini é diretor-geral do Inca; Fábio Gomes da Silva é nutricionista da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca.

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*Retirado da Gazeta do Povo

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