Segregação agrava psoríase

Pesquisa mostra rejeição ao aspecto da pele dos pacientes, que são excluídos de atividades sociais e de trabalho

Publicado em 17/10/2010 | Agência Estado

 

Fototerapia é um dos tratamentos para a psoríase, doença de pele que afeta 3% da população (foto: Marcelo Elias)

 

Pesquisa inédita feita em oito capitais revela o quanto a psoríase, uma doença que atinge 3% da população, ainda é cercada pelo medo e desconhecimento. Pessoas entrevistadas não hesitam em afirmar que evitariam contratar, frequentar a mesma piscina e até mesmo serem vistas na companhia de alguém com a doença.

“Mais do que dificuldades para tratamento, pacientes se queixam de segregação”, conta a chefe do serviço de dermatologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Lúcia Arruda.

Feita pelo Ibope a pedido do laboratório Janssen-Cilag, a pesquisa apresentou aos entrevistados fotos de pacientes com as formas leve e grave da psoríase. As reações eram de pena, tristeza e nojo, mesmo diante das imagens da doença no estágio mais ameno.

O desejo de ficar longe de pa­­cientes com a doença ficou evidente, principalmente entre homens. Das 602 pessoas entrevistadas, 83% disseram que não namorariam ou não manteriam relações sexuais com portadores de psoríase e 67% não levariam os filhos em pediatras com a doença. Outros 63% disseram que não contratariam um portador de psoríase para um cargo de gerência. Os porcentuais foram encontrados quando entrevistados estavam diante de fotos da forma mais leve da doença. Em fotos de pacientes com estágio mais adiantado, a resistência encontrada foi maior.

Confundida no passado com hanseníase, a psoríase está longe de ser contagiosa. As manchas vermelhas, que muitas vezes descamam, encontradas em várias partes do corpo são provocadas por processo inflamatório. “Vários fatores podem desencadear o problema: características hereditárias, reações a medicamentos, doenças respiratórias e até traumas emocionais”, diz Lúcia.

Quando o processo é disparado, células do sistema imunológico, as células T, passam a se replicar e a se diferenciar, levando a uma produção exagerada de citocinas, substâncias ligadas ao processo inflamatório.

“Mesmo passado o estímulo, o organismo acaba guardando a memória dessa reação exagerada. Uma nova crise poderá vir, tão logo o paciente seja exposto a um fator desencadeante”, afirma.

O preconceito acaba se tornando em mais um inimigo para essas pessoas. “Cria-se um círculo vicioso: o paciente que está num período de crise da doença nota a repulsa, o que aumenta o estresse e a dificuldade de o processo inflamatório ser debelado.”

Lúcia está convicta de que, para melhorar o problema, é preciso campanhas de esclarecimento. “As pessoas precisam ter em mente que a doença é controlável, acolher o paciente. Quanto mais bem aceito ele se sentir, melhores as chances de uma crise não retornar.”

Ela cita o caso de um cobrador de ônibus que muitas vezes apresenta a doença nas mãos. “As pessoas se recusam a receber o bilhete que ele entrega. Imagine o estresse diário.”

Algumas vezes, o funcionário pede para ser afastado. “Ele não tem incapacidade física, mas o sofrimento causado pela repulsa das pessoas é tão grande que ele prefere ficar longe do trabalho por um período. Quando a crise melhora, ele mesmo pede para voltar ao trabalho.”

O tratamento da psoríase é feito com uma série de medicamentos e técnicas, que variam de acordo com a resposta do paciente. “Mui­tas vezes fototerapia traz um bom resultado; outras vezes, pomadas. Em casos mais avançados, é preciso usar remédios que atuam no sistema imunológico. Os mais modernos são os biológicos. Mas todos têm de serem usados com bastante critério”, completa Lúcia.

*Retirado da Gazeta do Povo

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