Olha o Neoliberalismo ai gente: 2 anos de privatização e 34 suicídios.

De fato o capitalismo adoece, quando não mata.

Postamos aqui um texto lido no Jornal Brasil de Fato (ano 7/nº357) que foi originalmente publicado no “Opera Mundi“, mais do que fazer um “copia cola” o objetivo é demonstrar os desdobramentos do avanço do capital sobre as condições de Trabalho.

France Télécom: delírio financeiro e funcionários suicidas

Ambiente de trabalho cruel, desrespeito profissional e metas irreais são algumas das causas dos 34 suicídios em dois anos na empresa, como explica Ivan du Roy em livro sobre o caso

Ivan du Roy, autor de Orange Stressé

Na última segunda-feira (14), na França, foi apresentado um estudo sobre as condições de trabalho na companhia telefônica France Télécom, na qual, em dois anos, 34 funcionários se suicidaram. A pesquisa, da qual participaram 80 mil empregados, aponta que há um mal-estar generalizado na empresa. A descrição é dura: “Ambiente de trabalho tenso, quase violento; condições de trabalho difíceis; fragilização da saúde psicológica e mental de alguns empregados e um grande sentimento de insatisfação”.

O fenômeno, que o país não conhecia, foi analisado por Ivan du Roy no livro “Orange Stressé” (“Laranja Estressada”, em tradução livre, referência à operadora de celular da empresa, Orange), lançado em setembro. O livro já vendeu mais de 15 mil exemplares e analisa o processo de privatização da empresa e a lógica comercial estafante que se dissemina cada vez mais na França.

Nesta entrevista ao Opera Mundi, ele fala do suicídio dos funcionários e de por que o trabalho é tão importante na vida dos franceses.

Como você explica a onda de suicídio dos funcionários da France Télécom?
A França, como outros países europeus, sempre teve um modelo econômico e social equilibrado entre a economia de mercado (setor privado) e o grande setor público, considerado de interesse geral: os transportes, a energia, a telefonia, a saúde e a educação. Há uma década, o país começou um processo de privatização do setor público. Hoje se concretiza todo o processo de regulamentação contra as telecomunicações. Essa privatização é ilustrada pela invasão de lógicas financeiras em toda a economia. São essas lógicas do lucro e da rentabilidade econômica que pesam em cima do trabalho de cada funcionário, tanto do setor público quanto do privado. Os suicídios dos últimos meses mostram como o delírio financeiro exerce uma pressão sobre os trabalhadores e transforma as condições de trabalho.

O processo de privatização da France Télécom foi diferente das outras estatais?
A France Télécom foi a primeira estatal a ser privatizada. Até os anos 90, a empresa fazia parte da grande estatal PTT (que unia correios e telefonia). A PTT tinha por missão pemitir a cada cidadão francês o acesso aos correios, ao serviço bancário e às telecomunicações a um preço razoável. Em 1991, a empresa foi dividida em duas: Correios e France Télécom.

A partir desse momento, o processo de privatização da France Télécom foi progressivo. Em 1996, a empresa mudou de estatuto, virou uma sociedade anônima. Durante oito anos, o Estado vendeu suas ações e, em 2005, já detinha menos de 50% do capital. Na época, o ministro da Economia era Nicolas Sarkozy, atual presidente francês.

Qual foi a influência da política europeia nesse processo?
Na Europa, o setor das telecomunicações foi o primeiro a ser aberto à concorrência. As grandes estatais europeias, como a Telefónica da Espanha, a Deutsche Telekom da Alemanha e a Telecom Italia também foram privatizadas. Essas empresas poderiam estar trabalhando juntas. Porém, em vez disto, elas viraram concorrentes. É uma concepção estranha da comunidade europeia. Hoje em dia, as empresas se enfrentam em uma guerra comercial permanente. Na Argentina, por exemplo, France Télécom e Telefónica são as duas grandes empresas de telefonia rivais. E o mais paradoxal ainda é o fato que as estatais que foram privatizadas por último, hoje, são as empresas líderes do mercado europeu.

Como os empregados da France Télécom viveram essa privatização? Você acredita que ela influenciou os suicídios?
No caso da France Télécom, a privatização foi traduzida pelos empregados como uma reestruturação. Só para se ter uma ideia, em 1996 a estatal tinha 165 mil funcionários; hoje, tem 100 mil. Em dez anos, 70 mil pessoas foram “forçadas a partir”. A maioria dos empregados eram técnicos. Hoje todos os cargos são voltados para o setor comercial e de vendas. Milhares de empregados foram obrigados a mudar de profissão. A empresa tinha funcionários em todo o país. Várias agências fecharam e os funcionários foram obrigados a mudar de cidade. Durante anos, os empregados tiveram que se adaptar a essa restruturação. Isto criou um sentimento de incertidão, de estresse. Eu encontrei pessoas que em dois anos mudaram cinco vezes de lugar de trabalho; quer dizer, de escritório, de colega, de chefe. Pior ainda, a média de idade é de 48 anos. A grande maioria dos empregados entrou na empresa quando ainda era estatal. Esses funcionários têm mais de 15 anos de serviço, uma forte ligação afetiva e um longo engajamento na empresa. Eles consideram que a profissão exercida tem um sentido social.

Passando de uma cultura de serviço público para uma cultura comercial, todo esse sentido que eles davam ao trabalho se perdeu. E essa é uma das principais causas de sofrimento, de depressão que, em casos extremos, leva ao suicídio. Um professor francês se afasta por doença uma média de 11 dias por ano. A média nacional é de 9 dias e a média de um empregado da France Télécom é de 20 dias por ano.

No seu livro, você fala de gestão pelo estresse. Quais foram os métodos adotados pela direção da France Télécom?
Imagine um técnico de 50 anos de idade transferido para trabalhar em um call-center para vender assinaturas de celular. Ele sente que sua carreira regrediu. É humilhante. Nesses centros, cada vez que você vai ao banheiro, tem que apertar um botão para prevenir o gerente. E só tem direito a passar 10 minutos por dia no banheiro. Os funcionários são vigiados e controlados todo o tempo. Esses mesmos funcionários se encontram em contradição entre fazer um bom trabalho e terem alto índice de produtividade. Uma espécie de sofrimento ético se instala.

Porque algumas pessoas chegaram ao extremo de cometer suicídio?
Porque as instituições representativas dos empregados (comitê de empresa, sindicatos) não são mais capazes de atender à demanda. O diálogo social não existe mais. Os sindicatos estão cheios de problemas de estresse. A gestão da empresa que individualiza e isola o empregado resulta em que, quando um funcionário não consegue mais atender aos objetivos de rendimento, ele se encontra sozinho, isolado. Os suicídios são a consequência desse isolamento, e é a única maneira que alguns empregados encontraram para manifestar seu sofrimento – às vezes, em nome dos outros. Um funcionário que se suicidou no dia 1° de agosto deixou uma carta, dizendo: “Espero que meu gesto sirva de alguma coisa”.

Como a direção da empresa reagiu?
Os diretores da empresa durante muito tempo negaram o fato. A cada novo suicídio, eles diziam que era um drama pessoal. Assim, eles não se responsabilizavam. O problema da organização do trabalho e do sofrimento que pode exercer não era questionado. A reação da diretoria foi totalmente individual, como colocar à disposição dos funcionários um psicólogo. Nenhuma política de prevenção foi feita. Didier Lombard, presidente da empresa, falou que havia uma “moda do suicídio”. Essa reação mostra como a direção está desconectada da realidade que seus funcionários vivem.

E o que o governo francês está fazendo?
O Estado ainda é acionário da empresa, com mais ou menos 25% das ações. Tem representantes no conselho de administração. A pergunta é: o Estado é um acionário como outro qualquer, que deve arrecadar os lucros no final do ano e pronto? Em outubro, o governo forçou a diretoria da empresa a aceitar negociar com os sindicatos. Vamos ver como essas negociações terminarão. As negociações são lentas, teremos respostas em janeiro. De qualquer maneira, o governo demorou muito a reagir.

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