ASSISTÊNCIA SOCIAL

2261A3_1Assistência Social In: CASTRO, Josué de. Documentário do Nordeste. São Paulo: Brasiliense, 1965, 3. ed., p. 37-39. – Digitalizado pelo companheiro Prentici

ASSISTÊNCIA SOCIAL

A chuvinha miúda parecia uma cantiga enjoada de realejo, sem intenção de parar: chi-chi-chi, chi-chi-chi, feito brincadeira de chuva, mas muito pior do que se chovesse de verdade logo de uma vez. A poeirinha d’água borrifando o chapéu cinzento, já meio amarrotado, do dr. Félix, ia aos poucos mudando a côr da massa: de cinzento a esverdeado, de esverdeado a marrom… e nada do bonde chegar. Destino duro, êsse de esperar num tempo daqueles, um bonde que não aparece, e ainda por cima sem capa. Só com a roupinha de brim e o chapéu cinzento duvidoso.

Para distrair a impaciência e levado pela impaciência, o dr. Félix começou a pensar nas coisas tristes da sua vida, na sua vida inteira de coisas tristes: seis anos de estudos, de sacrifícios, de “média e pão com manteiga”, para se formar em medicina, para ser doutor. Para quê? Para levar chuva quase todo o dia, esperando os bondes hipotéticos da cidade de Recife, para ir ver nos subúrbios pobres morrendo sem dinheiro para comprar comida, quanto mais remédio.

Médico, profissão liberal. Lorota. Liberal para quem tem pai fazendeiro, capitalista, para pagar um consultório de luxo, para pagar anúncios nos jornais, para pagar os elogios dos amigos, para pagar as boas relações. Pai ou sogro, mas para quem começa no duro, sem encôsto, qual profissão liberal… assalariado, classe proletária, é o que é…

O chapéu do dr. Félix já estava pretinho d’água, quando o bonde amarelo apareceu na esquina, todo molhado, pingando água, pingando gente. O rapaz se agarrou num balaústre, mudou o rumo do pensamento e tocou p’rô subúrbio.

O dr. Félix, formado há um ano, é médico da “Fábrica Pureza”. Como a fábrica fica numa ilha da Várzea e êle mora em Olinda, tem que tomar dois bondes e um bote para chegar lá. Dia sim dia não aquela mesma estopada de viagem com o sol do Nordeste tinindo nas costas ou com a chuva fria se enterrando até os ossos como naquele dia 5 de março de inesquecível memória.

Depois de hora e meia de bonde e mais quinze minutos de bote lutando para atravessar contra a correnteza do Capibaribe, o dr. Félix chegou na fábrica encharcado como um pinto tirado duma poça d’água. Zé Luís, o porteiro, ofereceu tímido um golezinho de cachaça para tirar a morrinha, mas como não ficasse bem a um médico êstes hábitos populares (medicina, profissão nobre, dignificante sacerdócio) o doutor apenas agradeceu afetuosamente e não aceitou.

O apito tendo anunciado a sua chegada, o gerente mandou chamá-lo para ter com êle uma ligeira conversa administrativa. O sr. Renato Pontes, sócio e gerente, é um verdadeiro homem de negócios, sempre atento aos interêsses dos capitais da firma. Quando o médico enxugando as mãos com o lenço foi entrando no seu escritório, êle foi logo dando bom dia e entrando com a ladainha:

– “Doutor, o senhor sabe que nós temos todo o interêsse pelo bem-estar e pela saúde dos nossos operários, que foi exatamente isso que nos levou a contratá-lo pagando-lhe 200$000 por seus serviços médicos. O senhor sabe, doutor, que quando um operário adoece a ponto de não poder trabalhar nós continuamos a pagar-lhe in-te-gral-men-te…”

O doutor Félix rememorou o número imenso de tuberculosos trabalhando na seção das tintas e que foi um trabalho enorme para mudar os que não podiam respirar ali para outra seção – porque não havia vagas. E êles não queriam ficar sem êmprego. Morrer de fome logo de uma vez: preferiam esperar para morrer mesmo de tuberculose.

– “…o senhor sabe, doutor, que todo o remédio que o senhor receita nós fornecemos sem descontar da fôlha de pagamento…”

O doutor lembrou-se dos salários miseráveis daquela gente de 3 a 6 mil réis por dia.

– “…vê portanto o senhor que temos tôda a benevolência e espírito de humanidade com os nossos operários…”

O doutor Félix sorriu melancolicamente, mas o sorriso não passou despercebido do gerente que, mudando o tom melífluo de sua voz, continuou irritado:

– “Mas o senhor deve compreender que a nossa benevolência tem limites. Não pode ser também de pai para filho. As despesas em remédio estão sendo enormes. É preciso uma providência…”

O dr. Félix teve vontade de dizer que a providência seria dar comida e confôrto aos operários para não adoecerem todo dia, mas resolveu calar e continuar ouvindo.

– “… o senhor imagine que mês passado foram 400$000 de medicamentos. 400$000! senhor doutor… O que o senhor tem que fazer é receitar purgativo para esta cambada de vagabundos…”

O médico não respondeu nada. Saiu do escritório do gerente, entrou na salinha de consulta, tirou o paletó molhado e em mangas de camisa começou a trabalhar. Atendeu a onze operários: cinco tuberculosos, três velhos cardíacos, uma mulher hidrópica e duas crianças anemiadas, subnutridas, da seção de embalagem. Receitou-os como lhe pareceu mais acertado. Mesmo atendendo à sugestão do gerente de que tuberculose em operário não é doença, não lhe pareceu indicado receitar purgativos…

No dia seguinte o jovem médico recebeu uma carta da fábrica, onde em nome da diretoria eram dispensados os seus serviços médicos para se proceder a uma reforma na assistência médico-social dos operários. A carta era datada de 5 de março e assinada pelo gerente.

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